Ontem foi o nosso último dia de gravação com praticamente todo o elenco (ainda falta a Amanda na enfermaria e será bem pouco fácil arrumar isso) e foi muito, muito animal: caminhão velho, carro velho, fogo, sol, poeira, chuva, tudo do jeito que o diabo gosta!
Aliás, o diabo deve gostar mesmo e deve sentir especial prazer em nos colocar percalços absurdos. Ou Deus, sei lá, só sei que um deles (ou mesmo os dois) deve olhar pra cima ou pra baixo (dependendo do ponto de vista) e sorrir com um misto de ternura e ironia, "bobinhos...". "Que ousadia! alguém lá sem importa com vocês? ainda mais figuras milenares barbudas, chifrudas ou rabudas?" dirão alguns, munidos de todas as razões do mundo, mas a eles diremos "vista nossos sapatos, sente em nossas cadeiras almofadadas com espinhos de ferro!".
Oh Drama!
Vamos lá:
Tínhamos acertado o empréstimo de um mercedão antigo com um malucão que tem cinco desses na garagem (garagem é figura de linguagem, ok?), liguei para ele k vezes para confirmar, mês após mês, semana após semana, dia após dia:

Dia 120
- Olá senhor fulano, lembre-se do caminhão!
- Tranquilo, trouxa!
Dia 30
- Olá senhor fulano, tudo certo com o caminhão, não é?
- Claro, tontão!
Dia 5
- Olá senhor fulano, o caminhão existe e é nosso né?
- Certeza, bobalhão!
Eis que, para a surpresa da coletividade, no dia 1, a popular véspera.
- Olá senhor fulano, amanhã passamos ai para pegar o caminhão, ok?
- Ah filho, tirei a bateria, ta tudo parado!
- DOS CINCO???
- É eu inverti, coloquei a de um no outro, queimou tudo.
- TUDO?
- Tudo.
- ...
- Pena né? fica pra próxima!
- E se eu arrumar uma bateria? ou ligar meu rim em um deles?
- Ah mesmo assim, ta tudo sem freio...
- OS CINCO?
- Os cinco...
- Ah sim.
- Mas ó, faz assim, quando precisar de novo me liga!
- Sim, pode esperar!
Isso não é incomum, aliás é o mais comum, mas normalmente a negativa é menos elaborada, então, julguei eu, deveria ser verdade e de fato era, pois fui com o Jorjão (nosso mecânico) até os caminhões e só não saimos de lá pois ele julgou prudente não guiarmos caminhões de 40 anos sem freio pro ai. Eu protestei, mas fui vencido pelo argumento de que o caminhão poderia morrer e interromper nossa pista e portanto nossa gravação.
Fiquei muito feliz e pensei em adiar a cena, mas um sms do Thithola me fez mudar de ideia. O conteúdo não era de auto ajuda ou homoerótico, era simplesmente falando que ele resolveria 25 dos 50 problemas, pois havia arrumado um automóvel para tal. Feito!
Arrumamos outro caminhão, NO DIA DA GRAVAÇÃO, menor é verdade, mas muito estiloso. O arquiteto desta aquisição foi o nosso "gadget man", o Alex Hernandez, que na infância brincou com toda a população de Barão Geraldo. Ele me indicou ao Paulo, que apelidamos de Paulo Caminhão e um dos seus mecânicos, Antônio, levou a caminhonete chevrolet 70 para nós e lá ficou esperando, gentilmente, horas a fio. Nossos agradecimentos a ele!
Ai pensamos, com alívio, "ufa, deu certo". Sim, deu, UMA coisa das 50. No dia tivemos vários problemas, desde achar jatobá pra sujar os dentes dos vilões até os panos para cobrir as propagandas ao lado da caminhonete. Fácil, fácil...
No nosso "set", uma estradinha de terra no bairro de Betel, em Paulínia, um sol criminoso, violentão, brindando ao Cesar, a Marília e a Dona Alex que vestiam casacos de camurça e ao Thithola, que usava uma calça 4 números menor que seu corpo.
Para coroar, emprestamos uma Fiorino do Jorge para que eu fosse amarrado na caçamba no momento de filmar as cenas do carro. No primeiro take, sucesso! no retorno, uma freada brusca e nada do carro pegar, nada mesmo.
Correia quebrada!
- Tranquilo, vamos pegar o Fusca e buscar uma nova!
- Aham
- Flávio, o Fusca não tá pegando.
- Ah brincou
- Não, acabou a gasolina!
- Poxa vida! que gostoso! alguém quer dar um tiro na minha cara?
Com algum custo humano e financeiro, vencemos e fizemos a cena. A fiorino ficou lá, paradinha, até o fim da gravação, quando o dono foi resgata-la, com um sorriso no rosto.
Na cena da noite, havia a sensação de que algo poderia não correr muito bem, afinal faríamos um círculo de fogo no quintal de uma república estudantil, a "Tia Meia".
Apesar de o Thithola e o Kuara terem experiência com o manejo de fogo (ambos apresentam espetáculos de pirofagia) e de eu já ter feito fogo algumas vezes, sempre fica aquele medinho de perder o cabelo comprido, tal como perdi os pelos da perna.
Enfim, o acúmulo de probleminhas durante o dia fez com que atrasássemos um pouco o início das gravações e o sentimento de que algo foi esquecido, logo foi superado! locação bem decente, atores posicionados, fogo preparado... nada mais pode acontecer para nos atrapalhar!
Eis que chove...
Poderia ter caído um cometa, acontecido um terremoto ou uma explosão solar. A chuva seria a ÚNICA a apagar o fogo.
Dito e feito!
Obrigado, universo! seja você simbolizado por um barbudo ou um chifrudo.



